sábado, 28 de maio de 2011

Acupuntura no Ocidente

O relato de curas, muitas vezes espetaculares, com o uso da acupuntura, tem sido recurso frequente. O sucesso da anestesia com acupuntura, em diferentes cirurgias, tem produzido um grande impacto no ocidente desde a década de 70; os casos observados por Bland foram, nas suas próprias palavras, "suficientes para provar o valor da acupuntura como tratamento e como anestésico”.
Verifica-se, no entanto, que a demonstração empírica dos resultados obtidos com a acupuntura, por si só, tem se mostrado insuficiente para o reconhecimento da sua eficácia terapêutica, pois tais resultados são interpretados pelos cépticos como embuste ou, na melhor das hipóteses, como conseqüência de pura sugestão; segundo estes, as agulhas agiriam, no máximo, como placebo.
A preocupação de mostrar que os resultados obtidos com a acupuntura não se devem a sugestão está presente no discurso de Huan Xiang Ming (vice-diretor do Instituto de Pesquisa Médica Chinesa, em Xangai), em um seminário patrocinado pela OMS na China, em 1979 onde diz que o êxito da anestesia por acupuntura e a cura da disenteria bacilar pela acupuntura abalaram a opinião de que o efeito desse procedimento não passa de uma ilusão psicológica (Huan Xiang Ming, 1979), ou, nas palavras de Bland que questiona se a função anestésica da acupuntura é puramente mental, como explicar que as agulhas parecem ser igualmente eficientes na veterinária?.
Se, por um lado, o cepticismo continua presente no ocidente, de outro, muitos autores ocidentais já compartilham da opinião de que o número de casos estudados fornece alguma indicação da presença de um fenómeno que requer investigação adicional.
A tentativa de demonstrar a cientificidade da acupuntura é tarefa a que vêm se dedicando inúmeros acupuntores, desde o início do século. As páginas preliminares de “L'Acupuncture Chinoise", publicada na França por Soulié de Morant, em 1939, e que marcou o renascimento do interesse pela acupuntura no ocidente, já mostram certa preocupação neste sentido. Os trabalhos de Noboyet, demonstrando a diferença da resistência eléctrica da pele nos pontos de acupuntura, que permitiu a detecção dos pontos por multivoltímetros.
Entre 1912 e 1949, mesmo na China, verificaram-se tentativas de eliminar a prática da medicina tradicional, sob a alegação de que não tinha bases científicas. Antes da fundação da Nova China, em 1949, o conflito entre a medicina tradicional chinesa e a medicina ocidental foi, basicamente, a luta do sistema tradicional em continuar existindo, contra a ideia reacionária e subjectiva de que o sistema tradicional era retrógrado e não-científico.
A pesquisa científica voltou (com Hua Kuo Feng) a ser chamada a desempenhar uma atividade fundamental em nossa construção socialista e para nossas quatro modernizações; o campo da pesquisa académica volta a reacender a doçura da primavera (Huan Xian Ming, 1979), e Bland (1979) fala dos estudos desenvolvidos na China "envolvendo o emprego de aparelhos eletrônicos altamente complexos... que estão se aprofundando nos mistérios das endorfinas”.
Aos poucos, a resistência inicial ao emprego da acupuntura, no ocidente, vai sendo substituída pela opinião de que é vantajosa a integração entre os dois sistemas, o "progresso da integração do conhecimento tradicional com o método científico" é visto por alguns representantes da academia ocidental como "uma grande promessa".
Os estudos publicados no ocidente, na maioria dos casos ensaios clínicos onde se busca avaliar a eficácia da acupuntura no tratamento de dores crónicas de diferentes etiologias e localizações anatómicas, em geral, têm apresentado importantes deficiências metodológicas.
O uso de metodologia é absolutamente essencial para o esclarecimento das bases científicas da terapêutica com acupuntura. Pesquisas na fisiologia da acupuntura contribuem para o desenvolvimento da neurociência, desde o nível molecular até ao comportamental. Questões que surgem na prática clínica são fontes valiosas para a pesquisa básica dos mecanismos de acção da acupuntura. Estudos de alta qualidade científica irão certamente pavimentar os caminhos para a aceitação do seu uso em benefício do paciente que sofre de dor crónica assim como de outros distúrbios funcionais.
Muitos estudos foram realizados com pequeno número de pacientes, prejudicando a aplicação de testes de significância estatística. Em muitos casos, os critérios para a selecção inicial dos pacientes a serem incluídos no estudo são imprecisos ou mal definidos; em outros, os critérios para a definição do que deve ser considerado sucesso ou falha do tratamento não foram bem estabelecidos desde o início do estudo.
Queiroz (1986) fala de uma "crise profunda" da prática e do saber da ciência médica moderna, que "... refere-se à crise de seu paradigma dominante... o positivismo", e cujo sintoma principal é "... produzir serviços extremamente caros e ineficazes" mostra que "... historicamente, o desenvolvimento da medicina “científica” implicou a perda de uma visão unificadora do paciente, e deste com seu meio ambiente físico e social" e que este é "... um fenómeno recente e sem similar, quando confrontado com sistemas médicos não-ocidentais. Nesses sistemas médicos alternativos... o factor social existe como componente fundamental, ao contrário do que ocorre com o paradigma dominante da medicina ocidental moderna".
Capra (1986) também reconhece, na "influência do paradigma cartesiano sobre o pensamento médico" a origem dos problemas da moderna medicina científica:
"... ao reduzir a saúde a um funcionamento mecânico, (a medicina moderna) não pode mais se ocupar com o fenómeno da cura... a prática médica, baseada em tão limitada abordagem (a cartesiana) não é muito eficaz na promoção e manutenção da boa saúde. De fato, essa prática, hoje em dia, causa frequentemente mais sofrimento e doença, segundo alguns autores, do que a cura".
O mesmo autor, no capítulo em que trata do "Holismo e Saúde", acredita que "... podemos aprender com os modelos médicos existentes em outras culturas". Embora não seja seu objectivo apresentar a medicina chinesa como prática ideal, e apesar de advertir que "as comparações entre sistemas médicos de diferentes culturas devem ser feitas com todo o cuidado", reconhece que "... a noção chinesa do corpo como um sistema indivisível de componentes intercalados está, obviamente, muito mais próxima da abordagem sistémica do que o modelo cartesiano clássico". Ressalta que, para a medicina chinesa, "... a doença não é considerada um agente intruso, mas o resultado de um conjunto de causas que culminam em desarmonia e desequilibro... (e) será, em dados momentos, inevitável no processo vital... a saúde perfeita não é o objectivo essencial... o papel principal dos médicos chineses sempre foi o de evitar o desequilíbrio de seus pacientes". Observa que as diferentes técnicas terapêuticas da medicina chinesa visam "... estimular o organismo do paciente de tal modo que ele siga sua própria tendência natural para voltar a um estado de equilíbrio”.

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